
Dona Alba | Café Um Chêro
Há oito anos, recém-chegada a Brasília, sentei nesta mesma mesa, na 108 sul, e comi a mesma comida que agora saboreio enquanto entrevisto Dona Alba. Ela é dona, junto com o filho, João Gabriel, do Café e um Chêro, um dos negócios que mais cresceram na última década na capital e que hoje já conta com dez unidades espalhadas pela cidade.
Naquela época, minha missão era simples: encontrar uma coxinha “boa igual – que nem” as da minha cidade natal. Na primeira mordida, matei a saudade, não de um salgado, mas de casa.
Não tem como falar de comida afetiva em Brasília, sem mencionar o Café Um Chêro. Eu sei que o termo “comida afetiva” é amplo e até relativo, mas aqui a sensação é de uma memória coletiva, de um afeto compartilhado. Para mim, ficou claro que a receita do sucesso desse negócio está justamente nisso. Em cada prato, o cliente sente o carinho de mãe e filho e acaba sendo transportado para as próprias lembranças da melhor comida do mundo: a comida de mãe.
Mas, mesmo com um conceito tão forte, era preciso transformar esse afeto em negócio — em marca, em operação, em lucro.
Dona Alba passou parte da sua vida no Nordeste, cozinhando para uma família de muitos irmãos, depois que sua mãe faleceu, antes mesmo de completar 40 anos. As receitas precisavam ser fartas. Mais tarde, levou essa mesma comida caseira para os filhos: a carne de panela desfiada, o doce de banana que não podia (e não pode) faltar nos pratos salgados.
O que ela ainda não imaginava era o tamanho da saudade que João sentia não só da comida da mãe, mas da presença dela, que na época morava no Maranhão.
Até que veio a proposta.
— Mãe, tô com uma ideia. Me ajuda?
Que mãe diria não a um pedido assim?
Mesmo sem acreditar muito que as pessoas fossem gostar tanto do simples, do cuscuz, do pão de queijo, da carne de panela, do bolo de macaxeira… Dona Alba resolveu ajudar, pensando que seria apenas no começo do negócio. O João precisava saber as receitas e ela disse algo mais ou menos assim:
— João, é uma xícara aqui de casa de mesmo…
— Mas quanto pesa, mãe?
— Pitada é pitada, menino!
Mas logo ela entendeu que era necessário padronizar receitas, garantir qualidade e criar a temida – mas tão necessária – ficha técnica.
Dona Alba precisou se reinventar. Teve que aprender, depois de ter os filhos adultos e criados, sobre operação, processos e gestão. E assim, sem nunca ter sonhado com isso, de dona de receitas gostosas virou DONA de um negócio bem-sucedido.
Para tantas Donas Albas espalhadas pelo Brasil , mulheres que cozinham com alma e querem transformar esse talento em negócio, ela recomenda, antes de tudo, fé. Depois, trabalho, dedicação e a disposição de aceitar os presentes e desafios inesperados que a vida pode oferecer, em qualquer idade.
Assista a entrevista completa:

Dona Alba e o filho e sócio João Gabriel