
A presença da chef Júlia Almeida é marcante. Estou diante de uma mulher determinada, que assume uma missão — que talvez já seja algo tão natural a ela — dentro da gastronomia feminina e da cozinha brasileira.
Logo confirmo minhas primeiras impressões quando ela me conta que, ainda no início da carreira, fez uma lista com todos os chefs que admirava e com quem queria trabalhar e aprender em São Paulo. A essa altura, eu nem precisava perguntar se tinha dado certo.
Helena Rizzo (Maní), Jefferson Rueda (no extinto Attimo), Alex Atala (D.O.M.) e Carla Pernambuco (Carlota). Também estagiou no Central e no Maido, ambos já ranqueados como número 1 do mundo pelo The World’s 50 Best Restaurants.
Em 2024, participou como jurada do programa The Taste, no GNT, e, em 2025, ganhou o prêmio Chef Revelação de Brasília pela revista Veja Comer & Beber.
Hoje, Júlia é professora, consultora gastronômica e chef no The Plant, no Senac e no Terra Nova, além de já ter assinado cozinhas de restaurantes renomados como Almería, Castanho Café, Patinho Feio e Primo Pobre, entre outros.
Sem contestar sua relevância no cenário gastronômico da capital, o que mais me chama a atenção é a verdade que ela carrega. Júlia abraça a brasilidade e assina menus que fazem parte do meu, do nosso dia a dia. É comida que dá vontade de repetir sempre — aquela que não se come apenas para celebrar uma ocasião especial, mas também para celebrar um café com as amigas, um almoço em família ou até um momento consigo mesma.
Em meio a toda essa troca, ela monta para mim uma sobremesa enquanto conversamos: brigadeiro de abacaxi. Foi a primeira vez, e certamente não será a última, que provei.
Enquanto mistura os ingredientes, ela fala sobre o papel da gastronomia na vida das mulheres. Para muitas, como foi para ela, a cozinha pode ser uma oportunidade real de alcançar sonhos.
Júlia nunca romantizou a gastronomia. Não era um sonho de infância se tornar chef. A paixão surgiu ao longo do caminho, diante da sua própria realidade. Hoje, ela enxerga a gastronomia e o empreendedorismo feminino como uma ponte entre os objetivos e os sonhos de tantas mulheres.
– Em meio a tantas notícias de feminicídio e histórias de violência e abuso, empreender também pode ser uma forma de libertação financeira e mental. Uma maneira de dar propósito, autonomia e oportunidades de recomeço.
Sinto-me grata por também poder fazer parte, de alguma forma, desse movimento do empreendedorismo gastronômico feminino em Brasília. A chef ressalta que as mulheres da gastronomia em Brasília se apoiam, torcem umas pelas outras, comem a comida uma da outra.
E, depois dessa conversa, isso ficou mais claro para mim do que nunca.
Talvez seja isso que fique depois da última colherada do brigadeiro de abacaxi. Algo maior está sendo preparado ali: um caminho para que mais mulheres ocupem seus espaços, escrevam suas próprias histórias e transformem talento em autonomia. Quando mulheres se apoiam, o que nasce da cozinha pode alimentar muito mais do que pessoas, pode alimentar futuros.
Assista a entrevista completa: